Ensina-me a Chorar



Quem dera me pudesses tornar órfã
das entidades que trago a mais
e metamorfosear-me as ideias.
Arrancar das paredes deste quarto
o cimento fermentado no esqueleto
para que pudesse regressar ao sonho adolescente.
Se conseguisses varrer-me
e limpar a insânia galopante
por detrás dos móveis arredados
onda apenas me deixaram portas tesas e sapiências perras.
Leva de mim o que houve depois de Nós
e banha-me com a inocência
que sempre me viste por dentro.
Acredita somente e ensina-me a chorar
para que possa secar os meus ossos alagados
e repuxar o lustre à vida.

ps: um agradecimento especial pela imagem feita à medida :P

O Adeus de um Estranho


(É a) Pena de quem não sabe
nem cedo
nem tarde
dar valor a nada.

No dia da última lufada
libertou-me o ar rarefeito,
quando já desfeito
me escarafunchou o respeito
sufocando o que recebia
e o que transbordava.
Testou a sua mestria
numa exímia jogada.

A queda foi de um perfeccionismo

ao atirar-se do auge do protagonismo
para a vala que escavou,
que a noite carregou às costas
o trono das divas mortas
e o carril que me soltou.

Suicidou-se(me) mesmo ali,
debaixo dos olhos, num acto desesperante
de quem não sabe viver sozinho
nem ser amante de si.

E ignorando que ninguém poderia vencer

disse um Adeus áspero e enrugado
como só um Estranho em novo tamanho o sabe fazer.

Ele.

Leite com Chocolate


Não chores porque Fazes-me Falta
chora quando já não fizeres.
Não quero ser prodígio
para nunca mais ser demasiado.

Não quero duvidar
que viemos de longe e para sempre
desde que a Terra nasceu.

Não quero possuir a certeza
de que a tua parte de Nós
tem um martírio atroz que se perdeu.

Não posso ser tão parecida com o medo
que te faça dobrar
porque também me assusta o segredo
que o medo te vem segredar.

Não posso ser a música se não fizeste a canção.
Não posso viver das pessoas mágicas
e das suas formulas de expressão trágicas
se não tiver um chão.

Quando o tempo passa
porque esse não se pode estancar
ainda não aprendi a dizer-lhes adeus
o tempo não me consegue ensinar.

E não me consigo saber
se a conversa do nosso olhar
não me vier deslindar
Quem eu sou sem querer.

Nunca fui copo de leite
se não for com chocolate.
Jamais fui rainha
sem o Teu cheque-mate.



ps: Sim é para Nós

Cor de Rosa

Entreva-se um aperto motriz
uma ânsia no corpo.
O invólucro rijo de um coração mole
tenta segurar as pontas de um mundo torto...
...mas sabe a tão pouco!
Insistimos, estendemos as mãos
tentamos equilibrar-nos pés para nos mantermos sãos.
Queremos suster um mundo desbotado, mal amado, na ponta dos dedos
e alivia-lo de todos os degredos.
Prolongar uma vida interrompida.
Até aos joelhos enterrados a peso
sobra-nos um botão de força, ileso
para amainar o sujo dessa torrente lamacenta, desmedida.
E ai, no Mundo
palpita uma pedra
Cor de Rosa
de uma luz crédula, preciosa
de um olhar que ajudamos a nascer
de um minuto que levamos a esquecer
da dor que conseguimos matar.
Aos raros que conseguem acreditar.


ps: inspirado no post da Pris "Um dia de trabalho" e
respondendo parcialmente ao seu desafio

Bomba-Relógio



Trouxe-mo na sua partida
por um oceano de distância medida.
Trouxe-me pra dentro do pano
toda a chama vertida.

Cozeu a linha fútil da inteligência estéril

que não sente e apertou.
Aos pontos me debruçou
sob a crença inútil na utilidade da razão
como atracção para sentir.
E fez-me querer fugir.

Trouxe-mo na ponta da agulha afiada
que nada no meu tronco aberto
em arame farpado de um sismo inepto.

Na bomba relógio
alojou-me o seu tempo derramado
e atrasou-lhe o compasso.
Tornou-o espesso e escasso
e acertou o ponteiro.

Desejei que no derradeiro
fosse o égide detonador,
mas chamar-se-ia simplicidade
nunca complexo do amor.

o Contador de Histórias


Embrulhas o passado e o presente ao futuro
ficam atados numa âncora de rotalas que não cresce.
Mas vens floreando as tomas e inflamas o peito
e explodes nos contos que vestes a preceito

Nascem na alvorada da conquista
num ápice de encantamento
e na reconquista das velhas histórias de alquimista
numa felicidade mascarada de alento.

Triunfante,
queres impingi-las no meu corpo em alguma parte
Com se a verdade que inventas
nos transforma-se em arte...

No teu era uma vez esperas
que já o branco do horizonte comece por amar-te.
e que germine o azul da terra
em que mais uma vez te iludes.

Em mim
confias o astrolábio das rasuras em que te fundes,
e imprimes o acreditar na minha raiz,
Porque se a minha flor abrir no rasto de quem te vês
Restará uma ilha para o resto de quem és,

Mas se o meu caule na tua barquela perecer
Serás de novo marinheiro
em porto seco, aventureiro
contador de histórias ao raiar do ser.

Noctívagos


A escuridão nos meus saltos altos
quando ecoam nas pedras da calçada.
É branco. Será sempre o branco
beijado pelas luzes néon.
Desfila pelo asfalto negro
na brisa das horas sonolentas.
brilhos pregados ao céu.
De tons mágicos flutuantes
olham de cima o rio,
numa esguelha de sorriso maroto.
As ruas estão frescas e sozinhas
e numa canção muda as casas bailam.
Num embalo fervoso
cortejam a nossa presença.
É lisonjeia a admiração mútua.
Embriagados,
caímos na multidão frenética.
Fico imbuída de nós e tu Dela.
Dás-lhe texturas diferentes
mas sempre de ar
pequenino e descalço.
Exibes as plumas
e guardas-me nas asas.
Rodopiamos num silêncio eloquente.
É só no ávido crepúsculo
que nos encontramos a nu.
Arrumas os sapatos
no rasgar da aurora
quando desço da dormência
dos meus pés...
Aí te conheço quando te calas,
nas pausas entre ti e aquilo que dizes.
Levo comigo o genuíno
e deixo-te a confiança.
Vêmo-nos quando nos virmos.
Amanhã é outra Noite.

A voz


Boicoto a vibração do ar
música desses rires que
me assombram e me encantam,
de timbre melódico que gravitam
com a brusquidão de uma leveza
que me dói.
Podia gostar dessa voz
por dentro e por fora
desde a cascata de histórias
que me inundam do meu esquecimento
até ao porto inseguro em que a conheço.
Podia se deixasse,
arriscar o nosso canto
por uma jangada de banda desenhada
e beijar essas cordas
com um sopro de coragem.
Esterilizei o olhar e poli os sinais.
Selei hermeticamente o mausoléu
no lugar do coração.
Dou cobro ao silêncio que calas
para não consentir.
ps: 10.09.2007

Menina Carrossel


Vivia meio morto
até sentir o teu sopro
de corpo desenraizado
vivia solto, anestesiado

Acordas-te-me a vida
e andaste sobre ela
deixaste lá as pegadas
presas em tons de aquarela

Azul vermelho
sombra no espelho
verde amarelo
complicado singelo

Menina carrossel
que giras ao contrário
rodopias em fel
e eu sou o teu imaginário

Pregado ao que tenho
vejo-me um estranho
e lá vens tu mais uma vez
dançar sobre mim
enquanto me lês
E não há mais nada
para além da madrugada
quando fico a ler-te
fingindo não saber-te
a melodia decor

Menina carrossel
que giras ao contrário
rodopias em fel
e eu sou o teu imaginário

Queria saber tudo
o que poderiamos ter
sem mexer o corpo
sem tocar-te o rosto
descobrir-me antes de me perder
deixar o que não tenho
e ser do tamanho
do que posso ser

Pedaços de mim

As persianas enferrujadas lutam para não descer
entre os mundos do ser ou não ser.
Afunda-se-me na pele a encruzilhada de lençois
das majestades que dormem comigo.
Dou mais uma volta envolta em regaços de saudades
que transbordam dos poros do meu porta-retratos.
Agrafaram-me aqui entre o latejar do cansaço
e o eco estridente do silêncio
e deixaram essas partes somadas que sou eu,
essas somas divididas de casulos chocos,
fora da validade
do quanto me valem essas sobras de mim.
Porque eu somos Nós e Ele,
um contador de histórias,
uma décima de animal
e o sorriso inocente de três crianças.

Lisboa



Erro nessas rua e vielas onde encontro a minha liberdade.
O cheiro a antigo misturado com a brisa da juventude
a história a conviver com a novidade.
Os becos, os vãos de escada
as marchas até altas horas da madrugada.
A sardinha
o copo de vinho
o manjerico
a multidão que existe em mim quando Te sinto.
É um renovar de forças
uma esperança
é a alegria de voltar a ser criança.
O Tejo que jaz a teus pés
que espelha o passado, presente e futuro de quem és.
O fado que canta a tua tristeza
que a cada nota te confere a tua eterna beleza.
As janelas onde as comadres passam o dia a conversar.
A roupa estendida na corda ou no arame
à espera que o sol as venha secar.
Os velhos à jogatana no jardim ás 4 horas da tarde.
Os putos que saem da escola e vão para o parque....
...A saudade...

Lisboa, a Minha Vida, a Minha Cidade

ps:não há tempo deixo uma publicação antiga (2005)

Pessoa em part-time


De corpo presente, ausente de mim
procuro o rasto morno na minha lama.
Contemplo destas janelas ocas
daqui parecemos todos iguais,
peões de xadrez em trincheiras cinzentas
resquícios de pólvora em pavios esgaços.
Já descobrimos e fomos descobertos
já nos encontramos
e nos demos como incertos.
Depois de canhões de farsas
e de overdoses de sentidos,
ficam pilha de carcaças
entre sortudos iludidos.
Sou pessoa em part-time.
No resto, sou um bocadinho de tudo.

O rapaz que decorava sentimentos


Sonhava com a realidade e vivia em leitos de sonho.
Construia castelos de ilusões com muralhas de verdades intocáveis.
E os seus trilhos, esses que eram rectas virtuosas de princípios semeados em terra seca.
Dormia numa redoma e raramente acordava.
O seu sono era tão profundo quanto o seu despertar.
Enquanto se desligava do mundo fazia cálculos de emoções, vendia as sensações e triplicava opulência.
Era assim o rapaz que decorava sentimentos,
rodeado por multidões,
abandonado por si,
de ego cheio, vazio por dentro.

Nódoas


Mandem me pra cova se veneram o profano
espezinhem o jazigo do meu abraço
enterrem-me até ao tutano!
Esventrem me as veias dos pulsos
sufoquem o movimento das pernas
É na campa do perdão
que jazem as nódoas eternas.
Mas façam-no rápido tenham dó
Porque são os entretantos que me destroem
são as horas que me corroem
Entre as pessoas que me consomem
e a vida que desagua em pó.

Cidadã do Mundo


Trás a tristeza amarrada nas ondas do cabelo
o negro que baila em capas de línguas estrangeiras.
Cidadã dos quatro cantos do mundo
vagabundo de um regaço numa morada por roubar,
quisera ela saber todas as verdades do ser
para que a surpresa jamais a pudesse surpreender...
Ser o gosto de todos os gostos
espremer o universo de todos os desgostos
No fundo, só queria poder viver.

Uma questão de Semântica


Podia-o ler
as feições do sorrir
as esdrúxulas do olhar.
Podia-nos escrever
os verbos do sentir
os pontos de exclamar.
Ao invés sento-me no preâmbulo de braços pendurados
nos ombros de uma balança torta.
Tantas letras inanimadas num corpo algemado.
Cospem-se frases sem significado.
Já gostei de ironias e sarcasmos
de analogias e pleonasmos
mas não sou uma figura de estilo.
Quero ser semântica sem metáforas de palavras
onde eu tu e nós não são uma questão de pronomes
em tempos por conjugar,
o prato do frenesim em pautas de música por inventar.
Até gastar fico com a minha tua nossa emprestada.

Coração: Trespassa-se


"não te podes mostrar tanto"
Não sei viver de outra maneira!
"só sei que tens ai um coração de ouro"
Já lhe chamaram diamante
e num golpe de mestre
foi dilacerado.
Porque se te dói
dói porque também sangras
e não tens pedra
no lugar do coração.
Porque se to arrancaram
ainda sentes a falta dele
num vácuo onde se alastram
os orificios do medo,
restolho de dor.
Mas afinal não era amor?

ps: para um amigo

os Semi Deuses



Deleitam-se no cume de pedestais
de feições bordadas por diamantes em bruto.
Em pleno de si são intocáveis.
Nada é pequeno.
Mentes cor do céu
são despojados dos segredos da sua raiz
trilhando uma simbiose de sendas diferentes
mas iguais a si mesmos.
Têm quinas mas quem não as tem!
Arestas desgastas pelo cheiro a novo
onde vincam a sua fiel marca.
Se o breu tinge a sua cor
resvalam do Olimpo
e abatem-se num sono profundo debaixo do chão.
São pessoas novamente...
assim como quando as vi pela primeira vez.

Voltei

Eu escolho acreditar
e embarcar construir e navegar
e depois escorregar e subir e deslizar a cair
e querer e puxar e sentir a rasgar
dar mais uma volta e voltar
sempre voltar até cansar


Não há espaço em mim
mas eu vou a correr e quero chegar
e viver a esticar e romper por trincar
se descer vou trepar
se doer vou sarar


julho 06

Um tanto ao Quanto

Trago-la comigo
dentro do punho rasgado
onde está forjada
numa cegueira que não quero ver.
Pregas que a sei.
Nos atrasos do tempo
fica entranhada no sangue
e é como se nunca estranhasse
por tocar em ti quando sou eu.
Sempre que se derrete no pedaço que me deu
vergo-me aos sentidos sob a palma entreaberta.
Gostava de espreitar ali
não fosse sair mais cedo.